O FILHO DO LOBO
O primeiro livro de Jack London, Tha Son of the Wolf (O Filho do Lobo), foi publicado a 7 de Abril de 1900 pela editora
Houghton Mifflin Co, em Boston, há precisamente 100 anos. Recolha de histórias anteriormente publicadas pelas revistas Overland Monthly e Atlantic Monthly, era, nas palavras de um crítico da época, um livro «forte, telúrico e invulgarmente bem conseguido», do qual o jovem de Oakland bem podia orgulhar-se, embora pontuado por «inabilidades aqui ou ali» e com um leve sabor a imaturidade. London fazia, porém, jus ao título «o Kipling do Norte» que um outro crítico lhe conferira. O jovem
autor, embora vivendo na miséria, – ele que jurara não voltar a submeter-se à brutal exploração do trabalho assalariado – continua a escrever febrilmente e a tomar a palavra nas sessões públicas da secção local do Partido Socialista. Começava aqui o caminho da fama que sempre o acompanhou. Em Julho de 1897, tinham chegado aos Estados Unidos notícias da descoberta de ouro no Alasca. Encandeados pela ilusão de uma riqueza garantida, milhares de aventureiros partem de barco para as regiões
frígidas do Norte. Jack London, jovem rebelde, inquieto e sem rumo certo na vida, é um deles. Regressa menos de um ano depois, com as mãos vazias, atacado de escorbuto, sem trabalho nem meios de sobrevivência, mas com a cabeça cheia de histórias e a firme decisão de tornar-se escritor. Com efeito, grande parte das suas narrativas de viagens, como estas que aqui se publicam, espelham a vivência aventureira por ele experimentada no Klondike, reflectindo também a personalidade romântica,
enérgica e contraditória do autor. As ideias centrais que atravessam esta obra relacionam-se com as convicções darwinistas de Jack London: tudo se submete ao determinismo biológico e ambiental e à existência como um processo evolutivo governado pelo espírito de sobrevivência, em que dominam os mais fortes e mais adaptados e, acima de tudo, a inteligente besta humana. Mas o tema da luta pela vida entrelaça-se empolgantemente com a aventura solitária, entre tribos selvagens, longe do tédio da
civilização. A busca de novas fronteiras revela-nos como é possível viver como miserável ou herói, com estoicismo ou pusilanimidade, num ambiente telúrico de conflitos violentos, permeado de perigos, forças adversas e acontecimentos inesperados, onde a harmonia entre o homem e a natureza se apaga cruelmente e os protagonistas se vêem frente a frente consigo mesmos, num supremo momento de verdade. O extraordinário interesse pela vida e pela obra do escritor ainda hoje perdura, porque ambas
estão estreitamente ligadas, tendo ele sido capaz de o transmitir com arte ímpar. Ana Barradas |
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