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Terra e Liberdade |
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«A Guerra de Espanha desenrolouse num cenário de tragédia clássica. Uma epopeia de multidões, um – muitos – dramas shakespearianos. Com uma aura romântica distintiva e absolutamente singularizante. Que, quanto a mim, lhe é conferida pela importante e avultada componente anarquista e pelo envolvimento internacionalista de muitas pessoas a título individual. De todo o mundo, os melhores de entre nós – porque não dizêlo? – correram a Espanha, alistaram-se debaixo das bandeiras vermelhas da República, lutaram e morreram por um ideal sonhado de liberdade, tentando travar a besta nazifascista.» — escreveu recentemente João Varela Gomes no semanário Já.
Land and Freedom (Terra y Liberdade), um dos grandes acontecimentos cinematográficos dos últimos anos foi realizado por Ken Loach, um britânico com uma já extensa cinematografia da qual fazem parte filmes como Kes (1969), Family Life (1971), Fatherland (1986), Hidden Agenda (1990), entre outros. Não é propriamente como obra artística que Terra e Liberdade se destaca – aspectos passíveis de critica inevitavelmente ressaltarão se a análise incidir sobre esse plano –, mas sim o tema que aborda e que logo nos é revelado no seu subtítulo: “Uma História da Revolução Espanhola”. Durante quase 60 anos os únicos filmes importantes (excluindo os fascistas e os de propaganda) que surgiram sobre este período foram: L'Espoir, Mourir a Madrid e The Spanish Civil War. Os dois primeiros, se bem que de reconhecível valor cinematográfico, pecam por menosprezarem largamente o papel dos anarquistas ainda que, ao mesmo tempo, não se assumam abertamente como porta-vozes da versão comunista. O terceiro é um documentário produzido pela BBC-Granada para televisão e constitui, provavelmente, o mais rigoroso e imparcial retrato dos diversos lados em conflito já levado a ecrã.
Terra e Liberdade é diferente. É a primeira longa metragem de ficção que retrata não uma simples guerra civil em que duas facções se digladiam pela conquista do poder, mas um processo sobretudo revolucionário em que uma grande parte do povo espanhol e europeu depositou enormes esperanças e que acabaria por ser esmagada na “retaguarda” – pelos comunistas afectos a Moscovo – antes mesmo do triunfo de Franco. Mais do que fazer justiça aos milhares que lá combateram por um ideal, isto é revelar História. E, consequentemente, promover o debate sobre um dos episódios mais encobertos, mas politicamente mais importantes deste século. Daí que não seja de estranhar a grande atenção e cobertura que a imprensa libertária tem dado a esta película durante o ano que passou. O artigo que a seguir publicamos, surgido no jornal britânico Freedom em Junho de 95, resume e realça os aspectos mais significativos deste filme que foi estreado em Portugal no passado mês de Junho. |
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m dos muitos méritos do último filme de Ken Loach Terra e Liberdade é levar-nos a reler Homenagem à Catalunha. Grande parte da |
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película é, de facto, uma recriação das cenas da obra de Orwell: “A chamada instrução constava apenas de exercícios de parada do tipo mais antiquado e mais estúpido” (capítulo 1) no Quartel Lenine em Barcelona, as trincheiras na frente de Aragão, a espingarda que dispara pela culatra, as lutas de Maio em Barcelona.
John Cornford, comunista, combateu brevemente com o POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista) antes de passar para as Brigadas Internacionais. Orwell alistou-se devido aos seus contactos com o ILP (International Labor Party). Em Terra e Liberdade David, um comunista desempregado de Liverpool, junta-se ao POUM porque é o primeiro grupo que encontra. Stafford Cottman, amigo de Orwell no POUM no qual se baseia a personagem de David, era membro da Young Communist League. Quando David por fim |
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verifica, depois dos acontecimentos de Maio em Barcelona, que os Estalinistas estão a trair a revolução, rasga o seu cartão de partido. Finalmente, quando o POUM é ilegalizado (há uma visão rápida do infame título que surgiu no Daily Worker de 19 de Junho de 1937: “Trotskistas espanhóis com Franco”) a milícia de David é dissolvida à força e o seu comandante preso — seguramente para enfrentar, como Nin, a tortura e a morte.
Orwell (capítulo 5) lembra-nos oportunamente quem constituía o POUM: “Os milicianos do POUM eram principalmente membros da CNT.” Acrescenta: “Durante os primeiros dois meses de guerra foram os anarquistas, mais do que ninguém, os que salvaram a situação, e muito depois as milícias anarquistas (...) eram claramente os melhores combatentes de entre as forças puramente espanholas. A partir de Fevereiro de 1937 os anarquistas e o POUM poderiam até certo ponto ser agrupados.”
Uma das melhores cenas do filme é a tomada de uma aldeia controlada pelos insurgentes. A câmara portátil comunica-nos toda a emoção da luta de rua e o pânico causado por um padre que dispara do campanário da igreja. Uma vez capturado o padre nega a autoria dos disparos mas o seu ombro acusa as contusões do recuo da espingarda. É empurrado para uma execução sumária por isto e por haver delatado (rompendo o segredo de confissão) o esconderijo de quatro jovens anarquistas, entre cujos cadáveres é fuzilado. A terrível beleza revolucionária da cena é tão comovedora como qualquer uma de Potemkin ou de L’Espoir de Malraux.
A primeira coisa que os camponeses fazem ao ver os fascistas a afastarem-se é queimar as imagens e pinturas religiosas (quando os homens de Durruti começaram a fazer isto na aldeia de Pina, ficaram entusiasmados). Depois, os aldeãos e os milicianos do POUM convocam uma assembleia para discutir a colectivização, o coração da revolução espanhola. Segundo diz o próprio Loach: “um dos poucos momentos na história da humanidade em que se vê o povo tomando controlo da sua própria vida.” |
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Terra e Liberdade, uma co-produção anglo-espanhola e um dos filmes espanhóis concorrentes em Cannes, estreou-se em Madrid em 7 de Abril [de 1995]. Teve uma inesperada publicidade por parte de Santiago Carrillo, o líder comunista. Ele deu a sua opinião sobre o filme num artigo intitulado “O Fascismo Esquecido” publicado no El País de 6 de Abril. Criticou Loach por reduzir o heroísmo da luta republicana contra Franco, nas palavras de Carrillo “uma dos maiores épicos da luta pela liberdade neste século”, às diferenças entre o POUM e os comunistas. No dia seguinte Loach respondeu que Carrillo foi um dos que olharam os do POUM como colaboradores de Franco. Não deverá ser esquecido que depois da morte de Franco o partido comunista trairia uma vez mais os trabalhadores espanhóis ao estar de acordo com a amnésica transição que pretendeu fazer crer que a ditadura nunca existiu deixando assassinos em paz (notáveis torturadores policiais seriam promovidos pelos socialistas). Um membro do Partido Popular, agora no parlamento europeu, foi ministro do gabinete |
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de Franco quando foram levados a cabo cinco assassinatos judiciais por fuzilamento em Setembro de 1975. |
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Não é por acidente, claro, que Terra e Liberdade começa e acaba na Inglaterra contemporânea. Tal como Hidden Agenda e Ladybird Ladybird, é um ataque aos valores da Inglaterra conservadora. O idoso David sofre um ataque de coração no seu apartamento de Liverpool e morre na ambulância. Enquanto arruma, a sua neta encontra cartas dele escritas de Espanha à sua namorada, mais tarde esposa. A leitura destas cartas introduz as cenas retrospectivas. O filme termina com o enterro de David, no qual a neta lê umas linhas comovedoras de William Morris. Estas põem em relevo o facto de David ser um trabalhador inglês que nunca abandonou a luta para construir o que Auden chamou “a Cidade Justa.” Como o próprio David diz depois da dissolução forçada da sua milícia, apenas umas semanas antes da 11ª Divisão de Lister ser enviada a Aragão para destruir as colectividades: “Se tivéssemos triunfado aqui, e podíamo-lo ter feito, teríamos mudado o mundo.”
A descrição de Orwell das milícias do POUM é uma registo comovedor (capítulo 8) do que foi ter estado em Aragão na “única comunidade de qualquer tamanho da Europa Ocidental onde a consciência e o descrédito no capitalismo eram mais normais do que o seu contrário… Muitos dos motivos normais da vida civilizada — snobismo, ganância, medo ao patrão, etc. — simplesmente haviam deixado de existir. A vulgar divisão de classes na sociedade havia desaparecido… uma comunidade onde a esperança era mais normal do que a apatia ou o cinismo, onde a palavra «camarada» significava companheirismo e não, como em outros países, farsante… para a grande maioria do povo socialismo significava uma sociedade sem classes, ou não significava nada… as milícias espanholas, enquanto duraram, foram uma espécie de microcosmo de uma sociedade sem classes.”
A grandeza de Terra e Liberdade é que articula isto, mantendo a esperança viva. O filme faz eco do entusiasmo de Orwell convalescendo em Barcelona, na sua carta a Cyril Connolly (8 de Junho, 1937): “Vi coisas maravilhosas e posso, por fim, realmente acreditar no socialismo, no qual nunca acreditei antes.”
No dia em que Orwell se alistou na milícia do POUM conheceu um italiano no Quartel Lenine. Nunca mais o voltaria a ver mas ele converter-se-ia para Orwell num símbolo da “flor da classe trabalhadora europeia, assediada pela polícia de todos os países, o povo que enche as sepulturas colectivas dos campos de batalha espanhóis” (Recordando a Guerra Espanhola). O poema que Orwell escreveu sobre ele perto do fim da guerra civil termina: |
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Mas aquilo que no teu rosto vi Não há força que deserde Não há bomba que ao explodir Rebente o espírito cristalino. |
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E o “espírito cristalino” do filme de Loach deslumbra. |
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Alguma bibliografia essencial sobre a Guerra de Espanha
- Abel Paz, O Povo em Armas: Buenaventura Durruti e o Anarquismo Espanhol, Assírio e Alvim, Lisboa.
- «Incontrolado da Coluna de Ferro», Protesto Ante os Libertários do Presente e do Futuro Ante as Capitulações de 1937, Antígona, Lisboa
- George Orwell, Homenagem à Catalunha, Livros do Brasil, Lisboa
- George Orwell, Recordando a Guerra Espanhola, Antígona, Lisboa
- Hans Magnus Enzensberg, O Curto Verão da Anarquia, Companhia das Letras, São Paulo
- José Peirats, La CNT en la Revolución Española, Toulouse (3 volumes)
- Vernon Richards, Lessons from the Spanish Revolution, Freedom, London
- Franz Borkenau, The Spanish Cockpit, Pluto, London (Junto com Homenagem à Catalunha, o melhor relato testemunhal de sempre. Borkenau, membro do Partido Comunista Alemão, viria a tornar-se, mais tarde anticomunista)
- Sam Dolgoff, Anarchist Collectives: Workers Self Management in Spain 36-39, Black Rose, Montréal (Colecção de análises sobre as mais importantes realizações práticas da Revolução: os colectivos autogestionários)
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